Você já parou para pensar na quantidade de aparelhos eletrônicos descartados diariamente no mundo? Já refletiu, ao ver uma coleta seletiva de lixo eletrônico, qual o real destino desse material? E quanto ao impacto desses materiais no meio ambiente?

Essa história começa em 1946, com a invenção do 1º computador digital eletrônico do mundo. O ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Calculator) surgiu com o simples objetivo de realizar cálculos de trajetórias balísticas. Temos de considerar que, naquele tempo, não havia preocupação alguma com o descarte deste tipo de equipamento ou suas partes. A evolução contínua da tecnologia nos levou a criar mais máquinas, capazes de realizar cálculos mais complexos e em maior quantidade, num tempo cada vez menor. Nenhuma ação por parte delas, entretanto, é estranha aos seres-humanos: estas criações são capazes de fazer apenas o que as ensinamos.

Tamanha evolução nos levou a necessidade de criar novas formas de armazenar esta imensa quantidade de dados obtidos. Além disso, outro problema surge junto a esta questão: como podemos encontrar e utilizar esses dados de forma rápida e eficiente?

Ao longo dos anos, os fabricantes perceberam que a grande maioria dos equipamentos eletrônicos produzidos eram duráveis e sua substituição não seria tão frequente quanto gostariam para manterem seus altos lucros. Portanto, com o intuito de manter o “lucro acima de tudo”, resgataram um conceito surgido durante o período conhecido como a Grande Depressão Americana: a Obsolescência Programada. Essa é uma técnica utilizada para forçar a troca de produtos, mesmo que eles estejam em perfeitas condições de funcionamento. Os itens são fabricados já com “data de vencimento”, ou seja, com vida útil previamente estabelecida.

Após décadas de descarte proposital e indiferença, a contaminação do Meio Ambiente com o chamado lixo eletrônico finalmente se tornou o centro das atenções, forçando as empresas a pensarem de outra forma e a estabelecerem uma rotina de Logística Reversa e Reciclagem desses materiais (muitos deles cancerígenos, se não forem descartados corretamente). Atualmente, existe uma grande preocupação global relacionada a padronização das regras e controle desses processos.

De acordo com um estudo elaborado pela UNU (Universidade das Nações Unidas), aproximadamente 20% do lixo eletrônico gerado no mundo é coletado e reciclado corretamente. Entretanto, devemos lembrar que esta é apenas uma média e, em países em desenvolvimento, a realidade é muito pior.

Pressionados cada vez mais pela consciência social de seus consumidores, os fabricantes de produtos eletrônicos se viram obrigados a se adaptar à situação, adotando estratégias para contribuir com o descarte adequado de seus produtos e realizando campanhas publicitárias para vender uma imagem sustentável. Não é incomum empresas, mesmo não listadas nas Bolsas de Valores, publicarem seus Relatórios de Sustentabilidade com o objetivo de atrair novos consumidores e investidores.

Esses relatórios possibilitam demonstrar quais foram as ações tomadas com o intuito de impactar positivamente não só o meio ambiente, mas também a sociedade e a economia.

A chef e autora do blog Zero Waste Chef – Anne Marie Bonneau resumiu bem a questão:

“Não precisamos de um punhado de pessoas tendo ‘desperdício zero’ perfeitamente. Precisamos de milhões de pessoas fazendo isso de maneira imperfeita”.

A conscientização da população e das instituições públicas e privadas (crescente, mas ainda tímida) tem feito com que as empresas busquem itens ainda mais novos e profundos para se destacarem. 

Todo esse histórico nos traz até o momento que estamos vivendo, a tão comentada era da Transformação Digital. O volume de dados gerado cresce diariamente de forma exponencial. Algumas pesquisas apontam que são produzidos cerca de 2.5 quintilhões de bytes por dia (divididos entre formatos de texto, imagens, vídeos e áudios). Esse volume criado nos últimos dois anos é maior do que a quantidade produzida em toda a história.

Segundo a Forbes, os dados armazenados atualmente somam aproximadamente 4,4 zettabyetes (ZiB) e, nos próximos 5 anos, esse volume deve chegar aos 44 zettabytes (ZiB) – ou 44 trilhões de gigabytes. Mas quais são os “problemas” criados com essa nova realidade?

A pandemia acelerou os processos de Transformação Digital das empresas. Os trabalhos colaborativos em home office estão ocultando a necessidade de uma boa infraestrutura relacionada a segurança, processamento, armazenamento e transmissão de dados na nuvem. Em relação a sua própria rotina, vale a pena questionar:

  • Quanto espaço físico é necessário para armazenar o total de dados existentes?
  • Quanto tempo de planejamento, preparação, organização e validação são necessários para o armazenamento e leitura desses dados?
  • Quem e quantos são os Profissionais por trás desses processos?
  • Qual é o tamanho da banda de transmissão dos dados na nuvem?
  • Quanto calor é gerado pelos equipamentos que fazem esse processamento?
  • Quanta energia é necessária para manter e resfriar seus servidores?

Pensando no espaço físico, não podemos esquecer que para termos segurança dos dados precisamos de balanceamento de carga dos dados em servidores, fisicamente em locais distintos. Ou seja, só com essa informação, no mínimo dobramos o espaço:

Se nossa realidade envolve uma gigantesca criação de novos dados diariamente, é urgente sabermos qual o destino dessas informações. Só assim conseguiremos preparar os sistemas para lidar com elas de forma realmente eficiente. Dados não estruturados devem ser vistos como desperdício de recursos. Os profissionais capacitados para lidar com estas questões: cientistas de dados, desenvolvedores de aplicações, especialistas em cibersegurança e infraestrutura, entre outros, não são mais uma opção para as organizações, mas cargos essenciais. Os gastos relacionados a esses processos são vistos atualmente como investimentos seguros, pois sua eficiência tem se provado fonte de economia – e, muitas vezes, a razão por trás de novas rendas.

Um dos gastos mais expressivos dos data centers vem da necessidade de uma infraestrutura adequada. Os custos com energia elétrica para o funcionamento e o resfriamento podem ser bem altos. Gerenciar esse investimento exige atenção constante, sendo parte essencial para os estudos de viabilidade de substituição de equipamentos.

Os fabricantes também estão alertas. Prova disso são os estudos obtidos através do Projeto Natick, da Microsoft. Iniciado em 2018, o projeto surgiu para determinar a viabilidade de datacenters subaquáticos alimentados por energia renovável offshore e investigar a operação de unidades de data center ambientalmente sustentáveis e pré-montadas, capazes de funcionar sem luz, no fundo do mar, por anos.

Por estarem em terra, os equipamentos estão sujeitos a corrosão do oxigênio e da umidade, as flutuações de temperatura e ao contato com pessoas que substituem componentes quebrados podem contribuir para a falha do equipamento. Debaixo d’água, porém, o ambiente é relativamente mais frio e menos sujeito a tais fatores. Na verdade, o ambiente subaquático cria uma maior eficiência energética, capaz de reduzir os custos operacionais.

Sustentabilidade Digital não é uma moda ou um assunto passageiro; afinal ele está em constante evolução e seu sucesso depende de um planejamento a longo prazo. A Transformação Digital está cada dia mais rápida e, para alcançarmos o sucesso, é necessária uma evolução contínua e segura, que nos permita agir de forma objetiva, consciente e planejada.

 

Originalmente publicado por: Cristovão Wanderley no LinkedIn

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