O Arrependimento das Empresas com Demissões por IA
Por que as empresas estão recontratando quem a IA substituiu
Acompanhamos nos últimos meses um movimento de correção que poucos previram quando o entusiasmo pelas ferramentas de automação atingiu o ápice. Muitas organizações acreditaram que a substituição de equipes por sistemas digitais seria o caminho mais curto para a eficiência, mas os resultados práticos agora contam uma história bem diferente nas empresas.
Ao que tudo indica, profissionais que haviam sido desligados em meio à onda de implementação da IA estão sendo convidados a retornar para suas antigas casas, como conta um artigo do LinkedIn, destacando um curioso fenômeno batizado de bumerangue das demissões, indicando que 55% dos empregadores que realizaram cortes motivados pela tecnologia admitem arrependimento.
Pelo jeito, essa invertida de rota mostra que as máquinas ainda não conseguiram gerar confiança e estão aquém dos padrões de qualidade que se esperava.
O reconhecimento de que a busca pela redução de custos pode comprometer alguns serviços indica que o mercado está dando um passo atrás para, quem sabe, dar dois à frente.
Afinal, quando as tarefas ganham algumas camadas de complexidade, o sucesso dos sistemas automatizados despenca para apenas 35%, deixando um vácuo de insatisfação que exige a intervenção de uma pessoa preparada para tomar decisões sob pressão, incerteza e crise.
O problema, no entanto, ganha contornos ainda mais sérios quando olhamos para a base das organizações. Amy Edmondson e Tomas Chamorro-Premuzic, dois importantes pesquisadores e professores de business internacional, descrevem com propriedade em um artigo da Harvard Business Review os perigos de eliminar os cargos de entrada.
Ao automatizarmos as funções juniores com a justificativa de que a tecnologia organiza dados com rapidez, estamos destruindo o caminho de aprendizado das nossas futuras lideranças. A experiência de um gestor nasce justamente do enfrentamento das dificuldades operacionais e do contato direto com os problemas da linha de frente.
Sem esse repertório prático acumulado nos primeiros anos de carreira, a liderança corre o risco de se tornar ingênua e desconectada da realidade do negócio. Uma empresa que corta sua base para economizar agora pode estar comprometendo sua capacidade de inovação e sucessão para os próximos dez anos.
A verdade é que números publicados pelo LinkedIn reforçam que esse movimento de recontratação já atinge 5% dos profissionais demitidos no último ano, uma fatia que tende a crescer conforme as organizações percebem o prejuízo financeiro da perda do conhecimento institucional.
O ciclo de contratação custa até 50% mais caro do que manter e qualificar um funcionário.
Além do fator financeiro, existe o peso da cultura organizacional que se dilui quando trocamos pessoas por processos padronizados.
A IA entrega resultados com o mesmo padrão para todas as empresas concorrentes, o que acaba por eliminar a originalidade que diferencia uma marca em um cenário competitivo.
Nesse sentido, bem apropriada é a metáfora utilizada pelos professores no artigo de Harvard ao comparar o uso excessivo de automação ao ato de aquecer ideias no micro-ondas, resultando em algo conveniente e veloz, porém carente da profundidade que o esforço intelectual proporciona.
O aprendizado profundo e a resiliência profissional fazem com que o ser humano passe pelo desconforto de resolver desafios que não possuem uma resposta binária.
Se permitirmos que a máquina assuma toda a carga cognitiva dos novos talentos, criaremos uma geração de colaboradores dependentes que não desenvolveram o julgamento necessário para questionar os resultados sugeridos pelos algoritmos.
Vivemos um momento de transição que nos convida a redesenhar as funções em vez de simplesmente eliminar postos de trabalho.
A ideia de que a produtividade pode ser desvinculada da presença humana ignora que a inovação muitas vezes surge da variabilidade que as máquinas tentam suprimir. Por isso, nem oito nem oitenta.
O equilíbrio é implementar a tecnologia sem que ela apague o brilho dos talentos que nos trouxeram até aqui.






